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Será que Afonso Costa conhecia os assassinos de D. Carlos?

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A história portuguesa tem episódios que parecem pedir mais perguntas do que respostas. O regicídio de 1 de fevereiro de 1908 é um deles. Aquela tarde de tiros no Terreiro do Paço, que pôs fim à vida de D. Carlos e do príncipe Luís Filipe, abriu a ferida que quase dois anos depois acabaria por derrubar a monarquia. Durante décadas, houve quem garantisse que, por trás de Manuel Buíça e Alfredo Costa, se escondia uma teia de vontades mais altas, talvez uma mão invisível. E no centro de muitas suspeitas aparece um nome: Afonso Costa, líder republicano, maçon ilustre, tribuno feroz.

A pergunta impõe-se: será que Afonso Costa conhecia os assassinos do rei?

Para responder, é preciso separar três planos: ideologia, organização e prova documental. Afonso Costa era, sem margem para dúvidas, uma figura dominante da maçonaria portuguesa, iniciado na loja Montanha. Buíça e Alfredo Costa eram homens da Carbonária, a organização revolucionária que atuava nas sombras e que, ao contrário da maçonaria, não se incomodava com o uso da violência para fazer acelerar a História. É verdade que havia vasos comunicantes entre ambos os mundos e que muitos republicanos circulavam nos dois ambientes. Mas maçonaria e Carbonária não eram ramos da mesma árvore; eram parentes afastados que partilhavam apenas o ódio à monarquia e o desejo de mudança.

Daqui nasce o primeiro equívoco: a proximidade ideológica não é prova de coordenação. E no entanto, a República que se seguiu ao regicídio fez nascer suspeitas difíceis de apagar. Muito do processo judicial perdeu-se, documentos desapareceram em gavetas que nunca mais se abriram, e o ambiente político da época era propício a silêncios convenientes. Há quem veja nisso um sinal, há quem veja apenas o caos natural de um regime que nascia à pressa. A história raramente é tão arrumada como os nossos desejos de explicação.

O que se pode afirmar com segurança é isto: não existe prova documental de que Afonso Costa tenha conhecido pessoalmente Buíça ou Alfredo Costa. Não houve encontro marcado, carta escondida, ordem cifrada, pelo menos que tenha sobrevivido ao tempo. O que existe é uma confluência de circunstâncias: homens do mesmo campo político, todos decididos a derrubar o mesmo regime, uns pela tribuna parlamentar, outros pela pistola. E talvez seja por isso que a pergunta continua a perseguir-nos mais de um século depois. Não porque haja uma resposta escondida, mas porque há um silêncio histórico que nunca se dissipou.

No fundo, a questão transforma-se noutra: será que a ausência de prova é a prova de uma ausência? Ou será, apenas, a marca daquelas zonas cinzentas em que a política e a clandestinidade se tocaram sem deixar rasto?

Talvez nunca saibamos. A história nem sempre nos dá a verdade absoluta; às vezes dá-nos apenas a responsabilidade de não ceder à tentação das narrativas fáceis. E, olhando para o regicídio de 1908, talvez isso seja o que resta fazer: manter a pergunta viva, resistir ao mito e aceitar que a dúvida, quando é honesta, vale mais do que qualquer certeza construída à força.


Paulo Freitas do Amaral

Professor, Historiador e Autor

 
 
 

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