Espiritualidade franciscana, uma espiritualidade para hoje
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- 23 de nov.
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ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA UMA ESPIRITUALIDADE PARA HOJE |

INTRODUÇÃO Depois de termos olhado um pouco para a pessoa de Francisco de Assis, vamos agora tentar acolher algo da sua fascinante experiência de vida que muito tem a ensinar-nos. Esse muito, podemos, à boa maneira franciscana da simplicidade, reduzi-lo a uma só palavra: Evangelho. Viver o Evangelho foi, efetivamente, o segredo da vida de Francisco e é o convite que ele continua a fazer a quantos, como ele, desejam glorificar o Pai que está nos Céus e cumprir a sua vontade.
VIVER O EVANGELHO “Depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me ensinou o que devia fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que devia viver segundo a forma do santo Evangelho”, - assim escreve Francisco no seu Testamento, ao relembrar os inícios da Ordem Franciscana. Na Regra de Vida que deixou aos seus seguidores convida-os a seguir o caminho por ele empreendido, fixando sempre os olhos no Evangelho; no Evangelho que para ele não é um livro, mas a Palavra feita carne na Pessoa do Senhor Jesus Cristo. Para Francisco o Evangelho não é um conjunto de regras a observar, mas é vida, é presença mobilizadora, é caminho de identificação com Jesus, a trilhar apaixonadamente; Evangelho é enamoramento por Jesus. A partir desta descoberta e da opção pelo Evangelho em toda a sua intensidade, Francisco configura uma forma de vida pessoal que seguidamente propõe aos seus seguidores, dando origem àquilo que hoje conhecemos como franciscanismo ou espiritualidade franciscana: uma espiritualidade centrada no encontro pessoal com Jesus e na vivência da sua Palavra que é o Evangelho. Tudo começa aqui. Antes de mais e acima de tudo a espiritualidade franciscana radica num encontro pessoal e vital com Jesus. O seguimento de Jesus brota desse encontro pessoal, que gera um dinamismo de amor, um procurar configurar-se a Ele, não por qualquer tipo de interesse, mas simplesmente por Amor, para se ser parecido com Ele. Este dinamismo de amor é essencial, em todas as dimensões da vida; de uma vida evangélica que se torna anúncio do Evangelho. Na espiritualidade franciscana, o anúncio não é um meio, mas o fruto. Isto quer dizer que para a alma franciscana, mesmo que não houvesse mundo a converter ou a santificar, o anúncio seria sempre uma realidade própria, podemos mesmo dizer intrínseca à mesma. Isto, simplesmente porque a boca fala da abundância do coração. Neste sentido é dado como exemplo o canto do pássaro. Na verdade: porque canta o pássaro? O pássaro não canta porque tenha qualquer afirmação para fazer, mas porque tem o canto no coração. Assim o apostolado franciscano não é motivado por necessidades exteriores, mas brota espontâneo como uma música que se tem no coração. Por isso, mais do que uma atividade é um estilo de vida, é uma arte de viver, no meio do mundo. Assim, porque centrada no âmago do Evangelho a espiritualidade franciscana continua a exercer grande fascínio no nosso tempo, pelo que a podemos considerar como uma espiritualidade para hoje, e mesmo, como uma espiritualidade para todos: para quantos se dizem franciscanos, e também para todos aqueles que têm uma alma franciscana. Vejamos então em que consiste esta espiritualidade? Quais as notas ou linhas de força que a caraterizam? Podemos escrever muitas páginas e, efetivamente já muitos livros foram escritos sobre o assunto, mas se quisermos centrar-nos naquilo que é mesmo o essencial, podemos fixar-nos em apenas cinco pontos, ou notas que são a matriz estruturante da mesma.
1ª NOTA: A GRATIDÃO/ORAÇÃO/CONTEMPLAÇÃO A Bondade de Deus, a sua infinita gratuidade e benevolência, expressa em toda a Criação, foi algo que tocou muito fundo o coração de Francisco de Assis, algo que o enternecia até às lágrimas e que sempre esteve presente na sua oração. “Altíssimo, omnipotente e bom Senhor, a Ti toda a honra e toda a glória, a Ti o louvor…” assim rezava Francisco de Assis, extasiado de gratidão perante a bondade divina. Para Francisco, Deus é todo o Bem, o Sumo Bem, o Soberano Bem, de quem provêm todos os bens. E é este Sumo Bem que Francisco escolhe como o centro do seu amor, pelo qual se regozija inteiramente. Ao reconhecer cada sinal da bondade divina expressos em cada criatura, nas quais, vê apenas frutos dessa bondade, Francisco exulta de incontida gratidão. Para Francisco, a bondade de Deus espelha-se, em primeiro lugar, no rosto do irmão, seja qual for a sua condição ou situação, isto é, mesmo que se trate de um leproso. Tendo conseguido com a graça divina beijar o primeiro leproso, tornou-se, como sabemos, servo de todos. Porém, para ele, o dom dos dons, o supremo dom de Deus, do qual manifesta uma gratidão arrebatadora, é o dom de Jesus no mistério da sua Encarnação. “Olhai com quanto amor nos amou o Pai que nos deu como irmão o Senhor de toda a glória?! Para Francisco o dom da Encarnação divina dava um novo sentido a todas as coisas, que quando referidas a Jesus eram tratadas com tanto respeito e reverência, quase como se fossem sagradas. O sentido profundo da gratidão a Deus, de onde nos provêm todos os bens, é uma luz que ilumina o coração de Francisco e irradia à sua volta permitindo-lhe ver tudo com um novo olhar. Por isso, consideramos ser este profundo sentido de gratidão a Deus a primeira nota caraterística e definidora da espiritualidade franciscana; uma gratidão que conduz a um OLHAR NOVO sobre tudo quanto existe.
2ªNOTA: A POBREZA A segunda nota decorre naturalmente da primeira e é a pobreza. Perante o Altíssimo e Bom Senhor, Autor e Dispensador de todos os bens, Francisco reconhece-se como pobre, como alguém que tudo recebe e a quem tudo é dado. Perante Deus, Francisco percebe a sua pequenez, o seu nada. Porém, é um nada que se sabe amado e plenamente saciado pela Bondade divina. Por isso, não se cansa de repetir: Meu Deus e meu Tudo! Tendo sonhado outrora sonhos de grandeza e senhorio, Francisco percebe de forma luminosamente inspiradora que o único senhorio pertence a Deus e que não há maior grandeza do que a de deixar tudo por Ele, assumindo a condição de pobre, tal como Jesus ensinava no Evangelho: “Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino dos Céus”. Diante do “Altíssimo e Bom Senhor” que Francisco escolhe como o “Tudo” da sua vida, decide de forma radical privar-se de todos os bens terrenos e viver sem posse, isto é: sem ter nada a que chamar seu. Ao descobrir e experimentar a pobreza, como nova perspetiva da vida, ele encanta-se, mais do que isso, apaixona-se perdidamente por ela, a ponto de a desposar, fazendo-se um só com ela. Foi um casamento indissolúvel e eterno e por ele Francisco prova a sua grande genialidade espiritual. Nenhuma outra esposa o teria feito mais feliz! A exemplo de Francisco, aquele que escolhe o caminho da pobreza, será necessariamente alguém que detém a lucidez da humildade, pela qual percebemos não sermos donos de nada, a começar pela própria vida; será alguém que se sabe criado e sustentado pelo Pai. Ser pobre, portanto, antes de mais, é ser agradecido. É saber que existo porque Deus me ama, porque sou um dom do seu amor. E tal como eu o sou, também os demais seres criados são dádivas do amor divino. Então, a relação entre todos os seres passa espontaneamente a ser uma relação de raiz ontológica, isto é, de ser, e não possessiva ou de domínio. Em boa verdade não somos, não nos devíamos considerar proprietários de nada, mas sim usufrutuários ou administradores dos bens que nos são confiados. Nascemos nus e sem nada morreremos. Enquanto vivemos é-nos dado usufruir de muitos bens, é certo. Porém, não somos donos de nada. Na verdade, não dominamos nada. Pensemos em qualquer um dos nossos bens: materiais ou espirituais. É tão certo os termos agora, como os perdermos a qualquer momento: a começar pela vida, pela saúde, pelas nossas capacidades, por tudo aquilo a que nos habituamos a dizer: é meu! Os bens, as coisas que se recebem, não são ganhos nem conquistas, mas dons, prendas, presentes, dados por Deus diretamente ou através dos outros. O certo é que tudo é dom! Por isso, diante de todos os bens, nos devemos sentir na humilde atitude de quem recebe. Esta é a raiz e a razão de ser da pobreza em Francisco. E, não podemos deixar de reconhecer que se trata de uma atitude de grande sabedoria; uma fonte inesgotável de genuína felicidade e gosto pela vida. A ganância de ter, de possuir sempre mais, gera uma permanente insatisfação, inquietação e angústia pelo medo de perdermos aquilo que consideramos nosso. Com tais sentimentos a ocupar espaços dentro de nós é impossível experimentar o que é a verdadeira paz e a genuína felicidade. A matemática é infalível; a dos números e também a das posses. Quanto mais posses tivermos, menos espaço teremos para podermos experimentar e usufruir da verdadeira felicidade. Sim, porque também a felicidade é um dom de Deus; é o dom de sermos possuídos por Ele. Então, quanto mais posses temos, menos espaço encontra Deus em nós para nos possuir. Somos um território ocupado. Ser pobre é saber escolher a melhor parte. Na verdade, só há duas opções: ou somos de Deus, ou somos de nós mesmos e das “nossas coisas”. De facto, a pobreza, longe de ser privação ou miserabilismo é fonte de inesgotáveis riquezas. Dela brotam as atitudes de confiança e abandono, o espírito de infância, o encanto e a gratidão, a ternura e a cortesia, a paz do coração e, sobretudo, a alegria de viver para narrar e cantar as obras do Pai.
3ª NOTA: A FRATERNIDADE A disposição para narrar e cantar as obras do Pai, com um coração despojado e apto a ser possuído por Deus, leva-nos a uma terceira evidência a de que temos irmãos, muitos irmãos e que o modo correto de relacionamento entre irmãos se chama fraternidade. Portanto, o terceiro traço marcante e determinante na espiritualidade franciscana é, não poderia deixar de ser, a fraternidade. Assim, porque foi totalmente de Deus, Francisco foi também totalmente dos irmãos. E, não apenas das humanas criaturas, suas semelhantes, mas de todo o ser criado. Francisco foi o Irmão universal! A raiz e a fonte desta sua atitude de vida, Francisco encontra-a na Encarnação do Verbo de Deus. É com a sua Encarnação que Jesus vem nos mostrar como o Amor Trinitário é gerador de laços e de relações novas. Sendo Deus, Cristo fez-se um de nós tornando-se, assim, nosso irmão. Eis o grande acontecimento! Por isso Francisco nutria também um incondicional amor por Maria, a Mãe de Jesus, “Por ter feito nosso irmão o Senhor de toda a majestade” (2C198) Nascida de uma descoberta deslumbrante do Pai que ele experimenta na relação apaixonada com Jesus, a fraternidade é para Francisco o modo de ser normal na relação entre filhos de Deus. Na altura em que viveu Francisco, numa sociedade constituída por senhores e por servos, a fraternidade surgiu como uma revolucionária novidade, mas em boa verdade, a fraternidade é um facto evidente, indesmentível, porquanto é o coração do próprio Evangelho. Deus que tudo nos dá, também nos dá uns aos outros como irmãos. E Francisco reconhece-o de imediato: “Desde que o Senhor me deu irmãos” – diz ele a justificar a necessidade que logo sentiu de cuidar deles. A fraternidade em si mesma é algo que decorre direta e naturalmente da Paternidade Divina. Então, onde está a novidade? Em quê a fraternidade franciscana é portadora de novidade? Trata-se de uma novidade que naturalmente não está no facto de estarmos perante uma evidência evangélica, mas sim no modo concreto de a viver; este sim, um modo novo e singular. Para Francisco não basta sabermo-nos irmãos. Ele propõe que se viva esta realidade de uma forma amorosa e maternal. De notar que Francisco está a falar para homens e há oito séculos atrás, quando diz: “… Se a mãe ama e nutre com tanto amor a seu filho segundo a carne, com quanto mais amor e solicitude não deve cada um amar e nutrir o seu irmão segundo o espírito” (2R 6,8). Desta forma Francisco propõe um modo de ser irmão onde a afetividade, a entreajuda e o bem-querer têm primazia sobre a função. Quer dizer: para Francisco, a dinâmica da fraternidade não é funcional nem utilitarista, não é uma forma eficaz de vida comunitária, ou de pacífica convivência humana, mas essencialmente relação interpessoal afetuosa e cuidadora; tão ou ainda mais cuidadora do que a relação entre mãe e filho. “Amar e nutrir o irmão com solicitude” são as palavras que Francisco utiliza para definir o tipo de fraternidade que ele propõe, e, esta sim, é uma grande novidade em termos de relacionamento humano. Trata-se de um tipo de fraternidade de carácter pascal, geradora de vida nova, fecunda e potenciadora de santidade. A fraternidade proposta por Francisco é ainda caraterizada pela igualdade entre todos; uma igualdade de dignidade de ser e também de igualdade de direitos e deveres entre todos, a qual, se robustece e enriquece nas diferenças pessoais existentes, ou seja: uma igualdade que em vez de anular as diferenças as promove como enriquecimento. A este propósito, quando alguém um dia perguntou a Francisco como deveria ser o verdadeiro frade menor, ele respondeu reunindo as qualidades dos seus irmãos, e disse: “É aquele que tiver a fé de frei Bernardo, a simplicidade e pureza de frei Leão, a cortesia de frei Ângelo, o aspeto gracioso e o senso natural com a fala bonita e devota de frei Masseu, a mente elevada em contemplação de frei Egídio, a virtuosa e constante oração de frei Rufino, a paciência de frei Junípero, o vigor corporal e espiritual de frei João das Laudes, a caridade de frei Rogério e a solicitude de frei Lúcido” (EP, 85) Assim, a fraternidade franciscana, longe de ser uma elite, ou agrupamento dos melhores ou mais perfeitos é a conjugação dos diferente porque é das diferenças, que valorizadas e postas em comum, resulta a verdadeira riqueza da vida entre filhos que se sabem todos amados pelo Pai que está nos Céus.
4ª NOTA: A MENORIDADE Diz o refrão popular que “o hábito não faz o monge”. Mas é pelo hábito que se identifica um monge. O hábito identifica o monge distinguindo-o daqueles que não são monges e também de outros monges. Assim também um franciscano, seja frade ou leigo se deverá distinguir pela sua postura de menoridade. A menoridade é a veste espiritual do franciscano, é aquilo que, logo à primeira vista, lhe pode dar visibilidade. Francisco intuiu a menoridade de uma forma única e verdadeiramente revolucionária. Num tempo em que a sociedade estava fortemente estratificada entre: maiores e menores; entre senhores e servos; entre importantes e insignificantes, Francisco escolhe a menoridade como traço essencial da sua forma de estar na vida. Opera assim uma revolução social a partir do Evangelho, ou melhor, opera uma revolução evangélica com efeitos sociais. Como as demais também esta nota caraterística da espiritualidade franciscana nasce da descoberta do Pai; uma descoberta verdadeiramente fulgurante capaz de o transformar no mais profundo do seu ser onde se descobre filho e irmão e, por isso mesmo, um entre outros e não, nunca, acima de ninguém. A nota da menoridade, caminha a par com a da pobreza que nos remete para a humildade. Ao contrário dos grandes senhores do seu tempo que eram donos de muitos bens e por isso se sentiam muito superiores a quem nada tinha, Francisco sente-se humilde e pequeno, irmanado com a condição de carente e consciente de que, ele sim, está situado naquela que é a verdade da condição humana. Nenhum homem nasceu para dominar outro homem, mas para que todos juntos glorificarem o Pai que está nos Céus. Ser menor, assumir-se como tal é, pois, uma forma de evangelização; uma forma de dizer aos grandes: atenção o caminho não é por aí. Ser menor é, portanto, vestir o fato do pobre e assumindo-se como pobre apresentar-se sempre numa postura de humildade capaz de colocar em evidência o paradoxo do Evangelho, para que o mundo veja: para que o mundo veja o tremendo equívoco que a riqueza e a grandeza encerram, bem como a incomensurável injustiça do homem que se torna predador do seu semelhante ao exercer sobre ele a violência de um poder que julga ter. Situarmo-nos como pequenos e menores, neste mundo de grandes e poderosos, e de quantos não o sendo aspiram a sê-lo, fazê-lo de forma consciente e feliz, é, por conseguinte, uma forma inequívoca de anúncio do Evangelho; de um anúncio pela via do ser que é a única credível.
5ª NOTA: A ALEGRIA DO LOUVOR OU PERFEITA ALEGRIA Cantai! Exultai de Alegria, no Senhor! Só Ele faz maravilhas! A alegria do louvor, ou alegria por causa de Deus em Si mesmo era o grande motivo do júbilo de Francisco, da sua exultante alegria; uma alegria que o fez tornar conhecido também como homem festivo. Trata-se, porém, de uma alegria que não é aquela que o mundo conhece e a que está habituado; é uma alegria que pode coexistir até com a maior dor, porque é a alegria de experimentar que Deus é Deus, que é o único Senhor a quem é devida toda a honra e toda a alegria; é a alegria de Deus por Ele mesmo. “Altíssimo, omnipotente e bom Senhor, a Ti toda a honra e toda a glória, a Ti o louvor”! Francisco louvava e adorava incessantemente o Senhor e a verdade é que quem se abre ao louvor e à adoração, vive uma experiência de encantamento que o desprende de si mesmo. Deixa de se angustiar com o seu destino e até mesmo deixa de se interrogar acerca da sua vida de união com Deus. Fascinado pela maravilhosa realidade de Deus, vive mais n’Aquele que ele contempla do que em si mesmo. O seu ser não é senão um olhar deslumbrado. Deixa de se questionar. Deus é, isso basta. Sem se aperceber, entra na alegria de Deus, conhece a grande alegria divina de existir. Esta é a perfeita alegria! Todos temos necessidade de um grande impulso, vindo de Deus, que nos liberte da nossa pequenez e miséria e nos leve a comungar da fonte da vida e do amor criador. “O homem ama como vê” esta observação de Ângela de Foligno encerra uma profunda sabedoria. Aquilo que o homem vê e contempla, molda o seu coração. O seu amor tem a medida da sua visão. O homem transforma-se naquilo que contempla. Assim aconteceu com Francisco de Assis: o homem que em tudo via sinais da Bondade Divina, tornou-se, todo ele, contemplação e louvor. Toda a Criação é para Francisco um espelho que reflete a infinita Bondade do Pai celeste, Autor de todos os bens, de onde todos recebendo o ser e o existir (At.17,28) nos tornamos irmãos, iguais e diferentes, mas chamados a partilhar as nossas diferenças sendo também dons uns para os outros e desta forma chamados a construir um mundo fraterno onde reine a paz e a justiça, onde, finalmente: … o lobo possa habitar com o cordeiro, o leopardo se deite ao lado do cabrito, o novilho e o leão comam juntos e um menino os possa conduzir… (Is.11,6) Esta é a nova realidade que brota da Encarnação de Jesus e se consuma na sua Ressurreição. O mundo novo onde a Criação restaurada em Cristo readquire a sua beleza original. Esta realidade Francisco a intuiu no Evangelho, dela nasceu um carisma que é também um estilo e até mesmo uma filosofia de vida, a qual, hoje é proposta como espiritualidade franciscana. Trata-se, portanto, de uma espiritualidade de centralidade teológica, mas profundamente encarnada nas realidades temporais e concretas da vida que todos somos chamados a viver, pelo que continua a inspirar o nosso mundo incluindo pessoas não crentes. Efetivamente, ao longo dos séculos, muitos têm olhado S. Francisco de Assis como um exemplo a seguir. Neste sentido, acolhendo um consenso generalizado S. João Paulo II declarou em 1979 Francisco de Assis como “Patrono dos ecologistas” e louvou o seu olhar contemplativo, próprio de quem não pretende apoderar-se da realidade, mas tudo acolhe como um dom, descobrindo em cada ser o reflexo do Criador, e em cada pessoa a sua imagem viva.” Conforme vemos Francisco fez de toda a sua vida um verdadeiro cântico de louvor a Deus; um cântico que encontrou a sua expressão última no Cântico das Criaturas, também conhecido como Cântico do Irmão Sol, cujo oitavo centenário estamos a celebrar. Não vou referir-me em particular a esse texto, célebre até no âmbito da Literatura, mas proponho que terminemos este momento recitando-o juntos.
Altíssimo, omnipotente e bom Senhor Toda a honra, toda a glória, e o louvor! Só a Ti, Altíssimo, se hão de prestar E nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as Tuas criaturas Especialmente, o meu senhor, irmão sol, que faz o dia e por ele nos alumia. Ele é belo, radiante, com grande esplendor De Ti, Altíssimo, ele é a imagem.
Louvado sejas meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas Que no céu acendeste, claras, preciosas e belas. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento. Pelo ar, pelo céu nublado ou limpo, por todo o tempo, Pelo qual dás às Tuas criaturas o sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água Que é tão útil, humilde, preciosa e casta. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo qual iluminas a noite. Ele é belo, jucundo, robusto e forte.
Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a mãe terra Que nos sustenta e governa, e produz variados frutos Com flores coloridas e verdura.
Louvado sejas, meu Senhor, pelos que pelo teu amor perdoam E suportam enfermidades e tribulações. Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, Pois, por Ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a morte corporal, À qual nenhum ser vivo pode escapar Ai daqueles que morrem em pecado mortal Ditosos os que cumprirem a Tua santíssima vontade Porque a morte segunda não lhes fará mal.
Louvai e bendizei ao meu Senhor Dai-lhe graças e servi-O com grande humildade
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INTRODUÇÃO Depois de termos olhado um pouco para a pessoa de Francisco de Assis, vamos agora tentar acolher algo da sua fascinante experiência de vida que muito tem a ensinar-nos. Esse muito, podemos, à boa maneira franciscana da simplicidade, reduzi-lo a uma só palavra: Evangelho. Viver o Evangelho foi, efetivamente, o segredo da vida de Francisco e é o convite que ele continua a fazer a quantos, como ele, desejam glorificar o Pai que está nos Céus e cumprir a sua vontade.
VIVER O EVANGELHO “Depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me ensinou o que devia fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que devia viver segundo a forma do santo Evangelho”, - assim escreve Francisco no seu Testamento, ao relembrar os inícios da Ordem Franciscana. Na Regra de Vida que deixou aos seus seguidores convida-os a seguir o caminho por ele empreendido, fixando sempre os olhos no Evangelho; no Evangelho que para ele não é um livro, mas a Palavra feita carne na Pessoa do Senhor Jesus Cristo. Para Francisco o Evangelho não é um conjunto de regras a observar, mas é vida, é presença mobilizadora, é caminho de identificação com Jesus, a trilhar apaixonadamente; Evangelho é enamoramento por Jesus. A partir desta descoberta e da opção pelo Evangelho em toda a sua intensidade, Francisco configura uma forma de vida pessoal que seguidamente propõe aos seus seguidores, dando origem àquilo que hoje conhecemos como franciscanismo ou espiritualidade franciscana: uma espiritualidade centrada no encontro pessoal com Jesus e na vivência da sua Palavra que é o Evangelho. Tudo começa aqui. Antes de mais e acima de tudo a espiritualidade franciscana radica num encontro pessoal e vital com Jesus. O seguimento de Jesus brota desse encontro pessoal, que gera um dinamismo de amor, um procurar configurar-se a Ele, não por qualquer tipo de interesse, mas simplesmente por Amor, para se ser parecido com Ele. Este dinamismo de amor é essencial, em todas as dimensões da vida; de uma vida evangélica que se torna anúncio do Evangelho. Na espiritualidade franciscana, o anúncio não é um meio, mas o fruto. Isto quer dizer que para a alma franciscana, mesmo que não houvesse mundo a converter ou a santificar, o anúncio seria sempre uma realidade própria, podemos mesmo dizer intrínseca à mesma. Isto, simplesmente porque a boca fala da abundância do coração. Neste sentido é dado como exemplo o canto do pássaro. Na verdade: porque canta o pássaro? O pássaro não canta porque tenha qualquer afirmação para fazer, mas porque tem o canto no coração. Assim o apostolado franciscano não é motivado por necessidades exteriores, mas brota espontâneo como uma música que se tem no coração. Por isso, mais do que uma atividade é um estilo de vida, é uma arte de viver, no meio do mundo. Assim, porque centrada no âmago do Evangelho a espiritualidade franciscana continua a exercer grande fascínio no nosso tempo, pelo que a podemos considerar como uma espiritualidade para hoje, e mesmo, como uma espiritualidade para todos: para quantos se dizem franciscanos, e também para todos aqueles que têm uma alma franciscana. Vejamos então em que consiste esta espiritualidade? Quais as notas ou linhas de força que a caraterizam? Podemos escrever muitas páginas e, efetivamente já muitos livros foram escritos sobre o assunto, mas se quisermos centrar-nos naquilo que é mesmo o essencial, podemos fixar-nos em apenas cinco pontos, ou notas que são a matriz estruturante da mesma.
1ª NOTA: A GRATIDÃO/ORAÇÃO/CONTEMPLAÇÃO A Bondade de Deus, a sua infinita gratuidade e benevolência, expressa em toda a Criação, foi algo que tocou muito fundo o coração de Francisco de Assis, algo que o enternecia até às lágrimas e que sempre esteve presente na sua oração. “Altíssimo, omnipotente e bom Senhor, a Ti toda a honra e toda a glória, a Ti o louvor…” assim rezava Francisco de Assis, extasiado de gratidão perante a bondade divina. Para Francisco, Deus é todo o Bem, o Sumo Bem, o Soberano Bem, de quem provêm todos os bens. E é este Sumo Bem que Francisco escolhe como o centro do seu amor, pelo qual se regozija inteiramente. Ao reconhecer cada sinal da bondade divina expressos em cada criatura, nas quais, vê apenas frutos dessa bondade, Francisco exulta de incontida gratidão. Para Francisco, a bondade de Deus espelha-se, em primeiro lugar, no rosto do irmão, seja qual for a sua condição ou situação, isto é, mesmo que se trate de um leproso. Tendo conseguido com a graça divina beijar o primeiro leproso, tornou-se, como sabemos, servo de todos. Porém, para ele, o dom dos dons, o supremo dom de Deus, do qual manifesta uma gratidão arrebatadora, é o dom de Jesus no mistério da sua Encarnação. “Olhai com quanto amor nos amou o Pai que nos deu como irmão o Senhor de toda a glória?! Para Francisco o dom da Encarnação divina dava um novo sentido a todas as coisas, que quando referidas a Jesus eram tratadas com tanto respeito e reverência, quase como se fossem sagradas. O sentido profundo da gratidão a Deus, de onde nos provêm todos os bens, é uma luz que ilumina o coração de Francisco e irradia à sua volta permitindo-lhe ver tudo com um novo olhar. Por isso, consideramos ser este profundo sentido de gratidão a Deus a primeira nota caraterística e definidora da espiritualidade franciscana; uma gratidão que conduz a um OLHAR NOVO sobre tudo quanto existe.
2ªNOTA: A POBREZA A segunda nota decorre naturalmente da primeira e é a pobreza. Perante o Altíssimo e Bom Senhor, Autor e Dispensador de todos os bens, Francisco reconhece-se como pobre, como alguém que tudo recebe e a quem tudo é dado. Perante Deus, Francisco percebe a sua pequenez, o seu nada. Porém, é um nada que se sabe amado e plenamente saciado pela Bondade divina. Por isso, não se cansa de repetir: Meu Deus e meu Tudo! Tendo sonhado outrora sonhos de grandeza e senhorio, Francisco percebe de forma luminosamente inspiradora que o único senhorio pertence a Deus e que não há maior grandeza do que a de deixar tudo por Ele, assumindo a condição de pobre, tal como Jesus ensinava no Evangelho: “Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino dos Céus”. Diante do “Altíssimo e Bom Senhor” que Francisco escolhe como o “Tudo” da sua vida, decide de forma radical privar-se de todos os bens terrenos e viver sem posse, isto é: sem ter nada a que chamar seu. Ao descobrir e experimentar a pobreza, como nova perspetiva da vida, ele encanta-se, mais do que isso, apaixona-se perdidamente por ela, a ponto de a desposar, fazendo-se um só com ela. Foi um casamento indissolúvel e eterno e por ele Francisco prova a sua grande genialidade espiritual. Nenhuma outra esposa o teria feito mais feliz! A exemplo de Francisco, aquele que escolhe o caminho da pobreza, será necessariamente alguém que detém a lucidez da humildade, pela qual percebemos não sermos donos de nada, a começar pela própria vida; será alguém que se sabe criado e sustentado pelo Pai. Ser pobre, portanto, antes de mais, é ser agradecido. É saber que existo porque Deus me ama, porque sou um dom do seu amor. E tal como eu o sou, também os demais seres criados são dádivas do amor divino. Então, a relação entre todos os seres passa espontaneamente a ser uma relação de raiz ontológica, isto é, de ser, e não possessiva ou de domínio. Em boa verdade não somos, não nos devíamos considerar proprietários de nada, mas sim usufrutuários ou administradores dos bens que nos são confiados. Nascemos nus e sem nada morreremos. Enquanto vivemos é-nos dado usufruir de muitos bens, é certo. Porém, não somos donos de nada. Na verdade, não dominamos nada. Pensemos em qualquer um dos nossos bens: materiais ou espirituais. É tão certo os termos agora, como os perdermos a qualquer momento: a começar pela vida, pela saúde, pelas nossas capacidades, por tudo aquilo a que nos habituamos a dizer: é meu! Os bens, as coisas que se recebem, não são ganhos nem conquistas, mas dons, prendas, presentes, dados por Deus diretamente ou através dos outros. O certo é que tudo é dom! Por isso, diante de todos os bens, nos devemos sentir na humilde atitude de quem recebe. Esta é a raiz e a razão de ser da pobreza em Francisco. E, não podemos deixar de reconhecer que se trata de uma atitude de grande sabedoria; uma fonte inesgotável de genuína felicidade e gosto pela vida. A ganância de ter, de possuir sempre mais, gera uma permanente insatisfação, inquietação e angústia pelo medo de perdermos aquilo que consideramos nosso. Com tais sentimentos a ocupar espaços dentro de nós é impossível experimentar o que é a verdadeira paz e a genuína felicidade. A matemática é infalível; a dos números e também a das posses. Quanto mais posses tivermos, menos espaço teremos para podermos experimentar e usufruir da verdadeira felicidade. Sim, porque também a felicidade é um dom de Deus; é o dom de sermos possuídos por Ele. Então, quanto mais posses temos, menos espaço encontra Deus em nós para nos possuir. Somos um território ocupado. Ser pobre é saber escolher a melhor parte. Na verdade, só há duas opções: ou somos de Deus, ou somos de nós mesmos e das “nossas coisas”. De facto, a pobreza, longe de ser privação ou miserabilismo é fonte de inesgotáveis riquezas. Dela brotam as atitudes de confiança e abandono, o espírito de infância, o encanto e a gratidão, a ternura e a cortesia, a paz do coração e, sobretudo, a alegria de viver para narrar e cantar as obras do Pai.
3ª NOTA: A FRATERNIDADE A disposição para narrar e cantar as obras do Pai, com um coração despojado e apto a ser possuído por Deus, leva-nos a uma terceira evidência a de que temos irmãos, muitos irmãos e que o modo correto de relacionamento entre irmãos se chama fraternidade. Portanto, o terceiro traço marcante e determinante na espiritualidade franciscana é, não poderia deixar de ser, a fraternidade. Assim, porque foi totalmente de Deus, Francisco foi também totalmente dos irmãos. E, não apenas das humanas criaturas, suas semelhantes, mas de todo o ser criado. Francisco foi o Irmão universal! A raiz e a fonte desta sua atitude de vida, Francisco encontra-a na Encarnação do Verbo de Deus. É com a sua Encarnação que Jesus vem nos mostrar como o Amor Trinitário é gerador de laços e de relações novas. Sendo Deus, Cristo fez-se um de nós tornando-se, assim, nosso irmão. Eis o grande acontecimento! Por isso Francisco nutria também um incondicional amor por Maria, a Mãe de Jesus, “Por ter feito nosso irmão o Senhor de toda a majestade” (2C198) Nascida de uma descoberta deslumbrante do Pai que ele experimenta na relação apaixonada com Jesus, a fraternidade é para Francisco o modo de ser normal na relação entre filhos de Deus. Na altura em que viveu Francisco, numa sociedade constituída por senhores e por servos, a fraternidade surgiu como uma revolucionária novidade, mas em boa verdade, a fraternidade é um facto evidente, indesmentível, porquanto é o coração do próprio Evangelho. Deus que tudo nos dá, também nos dá uns aos outros como irmãos. E Francisco reconhece-o de imediato: “Desde que o Senhor me deu irmãos” – diz ele a justificar a necessidade que logo sentiu de cuidar deles. A fraternidade em si mesma é algo que decorre direta e naturalmente da Paternidade Divina. Então, onde está a novidade? Em quê a fraternidade franciscana é portadora de novidade? Trata-se de uma novidade que naturalmente não está no facto de estarmos perante uma evidência evangélica, mas sim no modo concreto de a viver; este sim, um modo novo e singular. Para Francisco não basta sabermo-nos irmãos. Ele propõe que se viva esta realidade de uma forma amorosa e maternal. De notar que Francisco está a falar para homens e há oito séculos atrás, quando diz: “… Se a mãe ama e nutre com tanto amor a seu filho segundo a carne, com quanto mais amor e solicitude não deve cada um amar e nutrir o seu irmão segundo o espírito” (2R 6,8). Desta forma Francisco propõe um modo de ser irmão onde a afetividade, a entreajuda e o bem-querer têm primazia sobre a função. Quer dizer: para Francisco, a dinâmica da fraternidade não é funcional nem utilitarista, não é uma forma eficaz de vida comunitária, ou de pacífica convivência humana, mas essencialmente relação interpessoal afetuosa e cuidadora; tão ou ainda mais cuidadora do que a relação entre mãe e filho. “Amar e nutrir o irmão com solicitude” são as palavras que Francisco utiliza para definir o tipo de fraternidade que ele propõe, e, esta sim, é uma grande novidade em termos de relacionamento humano. Trata-se de um tipo de fraternidade de carácter pascal, geradora de vida nova, fecunda e potenciadora de santidade. A fraternidade proposta por Francisco é ainda caraterizada pela igualdade entre todos; uma igualdade de dignidade de ser e também de igualdade de direitos e deveres entre todos, a qual, se robustece e enriquece nas diferenças pessoais existentes, ou seja: uma igualdade que em vez de anular as diferenças as promove como enriquecimento. A este propósito, quando alguém um dia perguntou a Francisco como deveria ser o verdadeiro frade menor, ele respondeu reunindo as qualidades dos seus irmãos, e disse: “É aquele que tiver a fé de frei Bernardo, a simplicidade e pureza de frei Leão, a cortesia de frei Ângelo, o aspeto gracioso e o senso natural com a fala bonita e devota de frei Masseu, a mente elevada em contemplação de frei Egídio, a virtuosa e constante oração de frei Rufino, a paciência de frei Junípero, o vigor corporal e espiritual de frei João das Laudes, a caridade de frei Rogério e a solicitude de frei Lúcido” (EP, 85) Assim, a fraternidade franciscana, longe de ser uma elite, ou agrupamento dos melhores ou mais perfeitos é a conjugação dos diferente porque é das diferenças, que valorizadas e postas em comum, resulta a verdadeira riqueza da vida entre filhos que se sabem todos amados pelo Pai que está nos Céus.
4ª NOTA: A MENORIDADE Diz o refrão popular que “o hábito não faz o monge”. Mas é pelo hábito que se identifica um monge. O hábito identifica o monge distinguindo-o daqueles que não são monges e também de outros monges. Assim também um franciscano, seja frade ou leigo se deverá distinguir pela sua postura de menoridade. A menoridade é a veste espiritual do franciscano, é aquilo que, logo à primeira vista, lhe pode dar visibilidade. Francisco intuiu a menoridade de uma forma única e verdadeiramente revolucionária. Num tempo em que a sociedade estava fortemente estratificada entre: maiores e menores; entre senhores e servos; entre importantes e insignificantes, Francisco escolhe a menoridade como traço essencial da sua forma de estar na vida. Opera assim uma revolução social a partir do Evangelho, ou melhor, opera uma revolução evangélica com efeitos sociais. Como as demais também esta nota caraterística da espiritualidade franciscana nasce da descoberta do Pai; uma descoberta verdadeiramente fulgurante capaz de o transformar no mais profundo do seu ser onde se descobre filho e irmão e, por isso mesmo, um entre outros e não, nunca, acima de ninguém. A nota da menoridade, caminha a par com a da pobreza que nos remete para a humildade. Ao contrário dos grandes senhores do seu tempo que eram donos de muitos bens e por isso se sentiam muito superiores a quem nada tinha, Francisco sente-se humilde e pequeno, irmanado com a condição de carente e consciente de que, ele sim, está situado naquela que é a verdade da condição humana. Nenhum homem nasceu para dominar outro homem, mas para que todos juntos glorificarem o Pai que está nos Céus. Ser menor, assumir-se como tal é, pois, uma forma de evangelização; uma forma de dizer aos grandes: atenção o caminho não é por aí. Ser menor é, portanto, vestir o fato do pobre e assumindo-se como pobre apresentar-se sempre numa postura de humildade capaz de colocar em evidência o paradoxo do Evangelho, para que o mundo veja: para que o mundo veja o tremendo equívoco que a riqueza e a grandeza encerram, bem como a incomensurável injustiça do homem que se torna predador do seu semelhante ao exercer sobre ele a violência de um poder que julga ter. Situarmo-nos como pequenos e menores, neste mundo de grandes e poderosos, e de quantos não o sendo aspiram a sê-lo, fazê-lo de forma consciente e feliz, é, por conseguinte, uma forma inequívoca de anúncio do Evangelho; de um anúncio pela via do ser que é a única credível.
5ª NOTA: A ALEGRIA DO LOUVOR OU PERFEITA ALEGRIA Cantai! Exultai de Alegria, no Senhor! Só Ele faz maravilhas! A alegria do louvor, ou alegria por causa de Deus em Si mesmo era o grande motivo do júbilo de Francisco, da sua exultante alegria; uma alegria que o fez tornar conhecido também como homem festivo. Trata-se, porém, de uma alegria que não é aquela que o mundo conhece e a que está habituado; é uma alegria que pode coexistir até com a maior dor, porque é a alegria de experimentar que Deus é Deus, que é o único Senhor a quem é devida toda a honra e toda a alegria; é a alegria de Deus por Ele mesmo. “Altíssimo, omnipotente e bom Senhor, a Ti toda a honra e toda a glória, a Ti o louvor”! Francisco louvava e adorava incessantemente o Senhor e a verdade é que quem se abre ao louvor e à adoração, vive uma experiência de encantamento que o desprende de si mesmo. Deixa de se angustiar com o seu destino e até mesmo deixa de se interrogar acerca da sua vida de união com Deus. Fascinado pela maravilhosa realidade de Deus, vive mais n’Aquele que ele contempla do que em si mesmo. O seu ser não é senão um olhar deslumbrado. Deixa de se questionar. Deus é, isso basta. Sem se aperceber, entra na alegria de Deus, conhece a grande alegria divina de existir. Esta é a perfeita alegria! Todos temos necessidade de um grande impulso, vindo de Deus, que nos liberte da nossa pequenez e miséria e nos leve a comungar da fonte da vida e do amor criador. “O homem ama como vê” esta observação de Ângela de Foligno encerra uma profunda sabedoria. Aquilo que o homem vê e contempla, molda o seu coração. O seu amor tem a medida da sua visão. O homem transforma-se naquilo que contempla. Assim aconteceu com Francisco de Assis: o homem que em tudo via sinais da Bondade Divina, tornou-se, todo ele, contemplação e louvor. Toda a Criação é para Francisco um espelho que reflete a infinita Bondade do Pai celeste, Autor de todos os bens, de onde todos recebendo o ser e o existir (At.17,28) nos tornamos irmãos, iguais e diferentes, mas chamados a partilhar as nossas diferenças sendo também dons uns para os outros e desta forma chamados a construir um mundo fraterno onde reine a paz e a justiça, onde, finalmente: … o lobo possa habitar com o cordeiro, o leopardo se deite ao lado do cabrito, o novilho e o leão comam juntos e um menino os possa conduzir… (Is.11,6) Esta é a nova realidade que brota da Encarnação de Jesus e se consuma na sua Ressurreição. O mundo novo onde a Criação restaurada em Cristo readquire a sua beleza original. Esta realidade Francisco a intuiu no Evangelho, dela nasceu um carisma que é também um estilo e até mesmo uma filosofia de vida, a qual, hoje é proposta como espiritualidade franciscana. Trata-se, portanto, de uma espiritualidade de centralidade teológica, mas profundamente encarnada nas realidades temporais e concretas da vida que todos somos chamados a viver, pelo que continua a inspirar o nosso mundo incluindo pessoas não crentes. Efetivamente, ao longo dos séculos, muitos têm olhado S. Francisco de Assis como um exemplo a seguir. Neste sentido, acolhendo um consenso generalizado S. João Paulo II declarou em 1979 Francisco de Assis como “Patrono dos ecologistas” e louvou o seu olhar contemplativo, próprio de quem não pretende apoderar-se da realidade, mas tudo acolhe como um dom, descobrindo em cada ser o reflexo do Criador, e em cada pessoa a sua imagem viva.” Conforme vemos Francisco fez de toda a sua vida um verdadeiro cântico de louvor a Deus; um cântico que encontrou a sua expressão última no Cântico das Criaturas, também conhecido como Cântico do Irmão Sol, cujo oitavo centenário estamos a celebrar. Não vou referir-me em particular a esse texto, célebre até no âmbito da Literatura, mas proponho que terminemos este momento recitando-o juntos.
Altíssimo, omnipotente e bom Senhor Toda a honra, toda a glória, e o louvor! Só a Ti, Altíssimo, se hão de prestar E nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as Tuas criaturas Especialmente, o meu senhor, irmão sol, que faz o dia e por ele nos alumia. Ele é belo, radiante, com grande esplendor De Ti, Altíssimo, ele é a imagem.
Louvado sejas meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas Que no céu acendeste, claras, preciosas e belas. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento. Pelo ar, pelo céu nublado ou limpo, por todo o tempo, Pelo qual dás às Tuas criaturas o sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água Que é tão útil, humilde, preciosa e casta. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo qual iluminas a noite. Ele é belo, jucundo, robusto e forte.
Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a mãe terra Que nos sustenta e governa, e produz variados frutos Com flores coloridas e verdura.
Louvado sejas, meu Senhor, pelos que pelo teu amor perdoam E suportam enfermidades e tribulações. Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, Pois, por Ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a morte corporal, À qual nenhum ser vivo pode escapar Ai daqueles que morrem em pecado mortal Ditosos os que cumprirem a Tua santíssima vontade Porque a morte segunda não lhes fará mal.
Louvai e bendizei ao meu Senhor Dai-lhe graças e servi-O com grande humildade Irmã Maria José Gouveia e Irmã Maria do Anjo |




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