A Basílica de S. Pedro em Guimarães vai ter mais uma torre? Há mais exemplos semelhantes pela Europa…
- correio_da_historia

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A notícia corre discreta, mas a pergunta é tudo menos pequena: poderá a Basílica de São Pedro ganhar uma segunda torre? A iniciativa parte da Irmandade de São Pedro e, mais do que um projeto de engenharia, é um desafio lançado à consciência histórica de Guimarães.
Durante décadas habituámo-nos à silhueta atual do templo. Uma torre apenas. Um perfil assimétrico que se tornou familiar, quase intocável. Mas a familiaridade não equivale necessariamente à fidelidade ao projeto original. Muitas igrejas europeias foram pensadas com duas torres e ficaram por uma — não por opção estética definitiva, mas por constrangimentos financeiros, vicissitudes políticas ou simples interrupções históricas.
A Europa oferece exemplos elucidativos.
A imponente Catedral de Estrasburgo foi concebida com duas torres na fachada principal. Apenas a torre norte se ergueu plenamente. A sul nunca saiu do papel. A assimetria acabou por se tornar imagem de marca do edifício, mas não corresponde ao desígnio inicial.
Também a Catedral de Bordéus conheceu um percurso semelhante. O plano medieval previa uma solução mais ambiciosa ao nível das torres, mas dificuldades estruturais e financeiras impediram a execução integral. O resultado final, embora majestoso, não traduz totalmente o desenho primitivo.
Estes casos não servem para legitimar automaticamente qualquer intervenção em Guimarães. Servem, sim, para recordar que a história da arquitetura religiosa é feita de avanços e interrupções, de intenções e adaptações. A ideia de “obra concluída” é, muitas vezes, um conceito posterior, cristalizado pelo hábito.
Guimarães não pode tratar o seu património com leviandade. Mas também não deve cair num imobilismo reverencial. A cidade que se orgulha de ser berço não pode temer o debate. Pelo contrário, deve promovê-lo com maturidade, convocando historiadores, arquitetos, especialistas em património e, sobretudo, a comunidade.
A questão central é clara: estaremos perante uma rutura com a imagem consolidada da Basílica ou perante a possibilidade de concluir um projeto historicamente pensado de forma diferente? A resposta exige estudo sério, levantamento documental rigoroso e transparência pública.
Há, contudo, um sinal positivo nesta iniciativa: ela revela vitalidade. Mostra que a Basílica não é apenas cenário, mas realidade viva. Que a Irmandade não se limita à gestão corrente, mas pensa em legado.
Se a segunda torre vier a erguer-se, que seja fruto de rigor, respeito e visão de longo prazo. Se não vier, que o debate tenha servido para aprofundar a consciência histórica dos vimaranenses.
Porque as cidades não se medem apenas pela idade das suas pedras, mas pela capacidade de refletirem sobre elas...
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor





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