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Alcácer do Sal, a cidade moldada pela água há cinco mil anos

Há quem se interrogue sobre a razão de tantas habitações de Alcácer do Sal se encontrarem tão próximas da água. À luz das preocupações contemporâneas com cheias e riscos naturais, essa proximidade pode parecer ousada. Contudo, a explicação não reside na imprudência, mas numa coerência histórica que atravessa milénios.

A presença humana naquele território remonta a mais de cinco mil anos. Desde a Idade do Bronze que comunidades se fixaram na elevação sobranceira ao estuário do Sado, atraídas pela fertilidade dos solos, pela abundância piscícola e pela facilidade de circulação proporcionada pelo rio. A água era sustento, via de comunicação e fator de segurança estratégica.

Foi, porém, na época romana que a cidade conheceu uma das suas fases de maior prosperidade. Sob o nome de Salacia Urbs Imperatoria, destacou-se pela produção e comércio do sal, recurso essencial na Antiguidade. O sal permitia conservar alimentos, nomeadamente peixe, tornando possível o seu transporte para mercados distantes. No estuário desenvolveram-se salinas e unidades de transformação piscícola que integravam a cidade nas redes comerciais do Império Romano. O rio funcionava como verdadeira estrada líquida, ligando o interior ao mar e este ao vasto mundo romano.

As escavações arqueológicas realizadas ao longo das últimas décadas têm confirmado essa relevância. No centro histórico surgiram tanques de salga praticamente intactos, mosaicos romanos, sistemas de drenagem e vestígios portuários que revelam organização económica avançada. Muitas dessas estruturas encontram-se sob edifícios posteriores, evidenciando uma ocupação contínua do mesmo espaço. As camadas sobrepõem-se, romana, islâmica, medieval e moderna, todas enraizadas na mesma relação com o estuário.

Durante o período islâmico, a cidade manteve a sua importância estratégica e económica, beneficiando da posição dominante sobre o rio. Mais tarde, já integrada no reino português, consolidou-se o padrão urbano que ainda hoje se observa, o casario descendo pela encosta até à margem, numa proximidade que reflete séculos de dependência económica da água.

Viver junto ao rio implicou sempre adaptação às marés e às cheias. Mas durante milénios os benefícios superaram largamente os riscos. O Sado foi fonte de alimento, meio de transporte, motor de comércio e elemento estruturante da identidade local. A geografia moldou a economia, a economia moldou o urbanismo, e ambos moldaram o caráter das gentes.

Alcácer do Sal não é apenas uma cidade antiga. É um exemplo raro de continuidade histórica, onde a água nunca deixou de ser o eixo da vida coletiva. Ao longo de cinco mil anos, mudaram os povos, os impérios e os regimes políticos. Permaneceu, porém, a mesma escolha fundamental, viver junto da água, porque dela sempre dependeu o futuro.

Paulo Freitas do Amaral

Professor, Historiador e Autor

 
 
 

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